O Carnaval de Salvador, internacionalmente reconhecido como a maior festa de rua do planeta e uma celebração da cultura negra, encerrou sua edição de 2026 sob a sombra de episódios graves de discriminação racial. A morte do psicólogo e mestrando Manoel Rocha Reis Neto, ocorrida horas após ele denunciar um episódio de racismo em um dos espaços mais exclusivos da folia, e a prisão em flagrante de um turista por insultos racistas, lançaram luz sobre a persistente segregação e violência simbólica que permeiam os camarotes da capital baiana.
O caso Manoel Neto: A voz que se calou após a denúncia
Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, era um profissional respeitado e um acadêmico promissor. Natural de Amargosa, ele havia sido recentemente aprovado no programa de mestrado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e possuía uma trajetória marcada pelo compromisso com a saúde mental e a luta antirracista. No entanto, sua participação no Carnaval de 2026 foi interrompida por um episódio de humilhação no Camarote Ondina, localizado no circuito Dodô (Barra-Ondina).Em suas redes sociais, Manoel relatou que teve sua passagem impedida por um homem branco dentro da estrutura do camarote. O desabafo, publicado pouco antes de sua morte, ressoou como um manifesto sobre a condição do corpo negro em espaços de privilégio:
“Caros amigos pretos, não se enganem. Dinheiro, títulos, sucesso… isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho”, escreveu o psicólogo.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Manoel foi encontrado morto na terça-feira (17), em Santo Antônio de Jesus. A Polícia Civil registrou o caso como suicídio. A notícia gerou uma onda de consternação em instituições como o Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03) e a UFBA, que destacaram sua atuação ética e seu engajamento social. Em nota, o Camarote Ondina manifestou pesar e afirmou seu compromisso com a diversidade, embora o caso tenha levantado questionamentos sobre a segurança e o acolhimento de pessoas negras nesses ambientes.
Prisão em flagrante: Turista de Santa Catarina detido
Enquanto a comunidade lamentava a perda de Manoel, outro caso de racismo ganhava as manchetes. Um turista de 42 anos, vindo de Santa Catarina, foi preso em flagrante no circuito Barra-Ondina após proferir insultos racistas contra duas funcionárias de um camarote. Segundo os relatos, o homem utilizou termos como “macacas” e “escravas” para se referir às trabalhadoras.
Diferente de muitos episódios que terminam em impunidade, a equipe do camarote identificou o agressor e acionou a Polícia Militar. O suspeito foi conduzido à Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). A organização do evento informou que cancelou todos os ingressos futuros do indivíduo e o baniu permanentemente de seus eventos.
Caso
Vítima(s)
Local
Desfecho
Manoel Rocha Neto
Psicólogo e Mestrando
Camarote Ondina
Denúncia nas redes seguida de falecimento (suicídio)
Turista de SC
Duas funcionárias
Camarote (Barra-Ondina)
Prisão em flagrante e banimento do evento
Idoso de 60 anos
Funcionário de bloco
Campo Grande
Prisão após monitoramento por câmeras
A “Bolha” dos camarotes e a segregação social
Os episódios registrados em 2026 não são isolados, mas refletem uma estrutura de segregação que muitos críticos chamam de “apartheid social” do Carnaval de Salvador. Enquanto a “pipoca” (o folião de rua) é majoritariamente negra, os camarotes — com ingressos que podem custar milhares de reais — funcionam como bolhas de branquitude e riqueza.
Especialistas apontam que o racismo nesses espaços se manifesta tanto de forma direta, através de insultos, quanto de forma estrutural, na vigilância excessiva sobre corpos negros que conseguem acessar esses ambientes. A morte de Manoel Neto, um homem que possuía os “títulos e o sucesso” mencionados em seu último texto, evidencia que a ascensão social não serve como escudo contra o racismo estrutural brasileiro.
Reações institucionais
As autoridades baianas têm reforçado o policiamento e a presença de delegacias especializadas durante a folia, mas os movimentos sociais cobram medidas mais drásticas das empresas privadas que gerem os camarotes. A Secretaria da Justiça e Direitos Humanos da Bahia reiterou que o racismo é crime inafiançável e que o suporte às vítimas tem sido priorizado através do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV).
O legado de Manoel Rocha Reis Neto agora se torna um símbolo de resistência. Sua trajetória acadêmica e profissional, interrompida de forma trágica, deixa um alerta urgente sobre a necessidade de transformar a “alegria” do Carnaval em um espaço verdadeiramente inclusivo e seguro para todos, independentemente da cor da pele.