Poucos casos criminais marcaram tanto a história recente de Maragogipe quanto a morte da marisqueira Adriane Ribeiro Santos, de 23 anos, e de suas filhas, Gleysse Kelly Santos da Conceição, de 5 anos, e Ruteh Santos da Conceição, de apenas 2. As três morreram em um intervalo de apenas duas semanas, entre julho e agosto de 2018, no distrito de Nagé, em circunstâncias semelhantes que, inicialmente, pareciam inexplicáveis.
A sequência de mortes mobilizou moradores do Recôncavo Baiano e deu origem a uma das investigações mais complexas conduzidas pela Polícia Civil na região. O caso envolveu exumações, exames toxicológicos, prisões, denúncia do Ministério Público e segue aguardando o julgamento pelo Tribunal do Júri, previsto para o dia 7 de outubro de 2026.
A primeira morte
O primeiro episódio ocorreu em 30 de julho de 2018. Gleysse Kelly passou mal repentinamente e foi levada para um hospital em São Félix. A criança apresentava intensa salivação e um quadro de hiperglicemia, mas morreu poucas horas depois.
Na época, como os primeiros exames não apontaram sinais evidentes de violência, a morte chegou a ser considerada de causa natural.

Nova tragédia uma semana depois
No dia 6 de agosto, exatamente uma semana após a morte da irmã, Ruteh também apresentou sintomas semelhantes e foi encaminhada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Maragogipe.
A menina chegou desacordada à unidade de saúde e morreu no mesmo dia. A repetição dos sintomas passou a despertar a atenção dos médicos e dos investigadores.
Adriane também morre
Ainda tentando lidar com a perda das filhas, Adriane Ribeiro passou mal na noite de 13 de agosto de 2018, novamente uma segunda-feira.
Segundo relatos, ela apresentava intensa salivação, suor excessivo e mal-estar súbito. A marisqueira foi levada para a mesma UPA, mas não resistiu.
As três mortes, ocorridas com intervalo de exatamente uma semana e com sintomas semelhantes, aumentaram as suspeitas da Polícia Civil.

Morte do cachorro chamou atenção
Outro detalhe que passou a integrar as investigações foi a morte do cachorro da família poucos dias antes da primeira criança.
Além disso, familiares informaram que nem Adriane nem as filhas eram diabéticas, apesar de medicamentos utilizados no tratamento da doença terem sido encontrados na residência.
A partir desses elementos, a hipótese de envenenamento passou a ser investigada.

Exumação dos corpos
Os primeiros exames toxicológicos não conseguiram identificar a causa das mortes.
Diante da ausência de respostas, a Polícia Civil solicitou a exumação dos corpos de Gleysse e Ruteh, autorizada pela Justiça em setembro de 2018.
Paralelamente, testemunhas começaram a ser ouvidas, levando os investigadores até um casal que havia se aproximado da família meses antes por meio da igreja frequentada pelas vítimas.
Prisões durante a investigação
Em outubro de 2018, Elisângela Almeida de Oliveira e seu marido, Valci Boaventura Soares, foram presos temporariamente.
Segundo a Polícia Civil, havia indícios de tentativa de interferência nas investigações. Posteriormente, Valci foi colocado em liberdade após a investigação não reunir elementos suficientes para sustentar uma acusação contra ele.

Laudos apontaram intoxicação por inseticida
Os exames toxicológicos complementares concluíram que Adriane e as duas filhas morreram em decorrência de intoxicação por Terbufós, um inseticida agrícola altamente tóxico.
De acordo com a investigação, a substância teria sido administrada em alimentos consumidos pelas vítimas em momentos diferentes, provocando as mortes ao longo de três semanas consecutivas.
Acusação
Com base nos laudos periciais, depoimentos de testemunhas e demais provas reunidas durante o inquérito, o Ministério Público denunciou Elisângela Almeida de Oliveira pelos três homicídios.
Segundo a acusação, o crime teria sido motivado por uma suposta obsessão em relação ao marido de Adriane, Jefferson Eduardo Brandão.
A denúncia sustenta que a acusada agiu por motivo torpe, utilizando veneno e impossibilitando qualquer chance de defesa das vítimas.
A defesa, por sua vez, nega as acusações.

Julgamento foi adiado
Após a fase de instrução, a Justiça decidiu que existem indícios suficientes para que o caso seja submetido ao Tribunal do Júri, cabendo aos jurados decidir sobre a culpa ou inocência da acusada.
O julgamento chegou a ser marcado para abril de 2026, mas foi adiado após a defesa informar que Elisângela havia passado por uma cirurgia.
Uma nova sessão também foi suspensa por questões relacionadas ao estado de saúde da ré.
Júri está marcado para outubro
Depois dos sucessivos adiamentos, o Tribunal do Júri foi remarcado para o dia 7 de outubro de 2026.
Quase oito anos após as mortes que abalaram Nagé e toda a região de Maragogipe, familiares das vítimas ainda aguardam a conclusão do processo judicial.
Até que o julgamento seja realizado, caberá aos jurados analisar as provas apresentadas pela acusação e pela defesa para decidir sobre a responsabilidade criminal da ré.

Siga o Divulga Maragogipe no Google Notícias, Facebook, Instagram e Twitter e receba as principais notícias do dia.

